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“Charque” traz Marcelo Mirisola em seu melhor estilo, confundindo os limites da ficção e da biografia, da verdade e da mentira
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Em seu novo romance, Charque, Marcelo Mirisola retoma o personagem biográfico para destrinchar, com seu lirismo raro, os paradoxos de mitos e ritos da sociedade brasileira.
Charque
Autor: Marcelo Mirisola
Editora: Barcarolla
Páginas: 224
Preço: R$ 38,00
O escritor paulistano Marcelo Mirisola lança pela Barcarolla, Charque, o seu 12º livro. Munido de uma prosa mordaz, o autor se funde com o narrador que aponta os dedos inclementes para as fissuras no quadro da realidade brasileira. Dos descaminhos de sua vida aos personagens que se notabilizaram no imaginário nacional, o romance-biografia apresenta um bestiário rico e sarcástico deste lugar chamado Brasil.
Com a intenção de “enfiar a ‘primeira pessoa’ no seu devido lugar”, Mirisola escava sua memória-imaginação. O lançamento será dia 31 de outubro (segunda), a partir das 19 horas, na Mercearia São Pedro, na Rua Rodésia, 34, Vila Madalena, São Paulo.
O que temos em Charque é Marcelo Mirisola em seu melhor estilo, confundindo numa só tacada os limites da ficção e da biografia, da verdade e da mentira. Tudo regado por uma linguagem que seduz e intimida por sua beleza e veracidade.
As memórias de Mirisola, ou melhor, do narrador, não admitem idealizações ou escapismos. Levam o leitor à beira do abismo onde, com tom de galhofa, ele aponta para si mesmo sem esconder o riso. Dos dias ensolarados no Clube Pinheiros, ao zoológico que passou a ser a sua escola primária, a leitura revela um narrador que não se furta ao ato dócil de revirar o lixo. Passado e presente se misturam num fluxo em que o confessional e o escárnio se fundem: “Confesso que é difícil não me gabar: mas sempre fiz as escolhas adequadas. Tanto fazia se errava ou acertava o alvo. Sempre foi assim. Até hoje é assim”, escreve o autor.
Este ser que vive acossado entre o “menino de olhos amendoados” da infância e o “tiozinho do espelho” dos dias de hoje narra uma vida cheia de mazelas, embates, ereções e outros lirismos. Confessa o inconfessável, persegue aquilo que todos buscam escamotear, coloca o dedo em suas próprias feridas e cutuca a onça sempre com vara curta: “Antes da Mercearia São Pedro (…), os despachantes, digo, meus colegas escritores, se reuniam no Bar Balcão, nos Jardins. Não existia o benefício da dúvida: todos eram gênios e iluminados.”
Percorrer as linhas de Charque é confrontar-se com um mundo que, longe de perfeito, mostra suas rachaduras. O narrador não se cala, não omite nada e nos desfralda a bandeira da mentira e da candura. Esse amontoado de carne, esse charque, vai sendo exposto camada por camada, linha por linha, sem nenhum medo ou outro tipo de exibicionismo.
Sobre o autor
Marcelo Mirisola nasceu em São Paulo, em 1966. Considerado um dos expoentes da Geração 00 publicou doze livros, entre eles destacam-se Fátima fez os pés para mostrar na choperia (1998), O herói devolvido (2000), O azul do filho morto (2002), Joana a contragosto (2005) e Memórias da sauna finlandesa (2009)
Trecho:
1986. Depois do incidente no matadouro, num dia arrastado e cansativo que abatemos mais de 150 coelhos num só período, resolvi que chegaria na barbearia respingando sangue adocicado, e diria “barba”. O velhinho, corcunda e amedrontado, indicaria a cadeira que parecia um trono forjado na metalúrgica Simão & Silveira, e responderia “pois não”. Lá fora, uma tropa de mulas atravessaria a rua e levantaria poeira. Nesse instante, o velho barbeiro de mãos trêmulas me vestiria um avental engordurado para logo em seguida começar seu trabalho.
Navalha afiada, a espuma cobrindo meu queixo anguloso. Só havia um problema, ou dois. Ou três. Ou milhares deles.
1. Estávamos em 1986, numa cidade chamada São João da Boa Vista e não no Alabama – como eu pretendia – em 1786.
2. Eu era o responsável pelo setor de degola da coelheira: havia adquirido uma habilidade diabólica para cortar as jugulares dos coelhos e encaminhá-los para o Diquinho, meu parceiro de matança e o “finalizador” mais rápido da Alta Mogiana. Naquela tarde, abusei da confiança adquirida e cortei apenas uma jugular do bichinho, lembro disso, cinza e branco, que, antes de ter o sangue esvaziado do cérebro – ainda vivo – foi parar nas mãos do Diquinho que mecanicamente o escalpelou e completou o serviço.
3. Como é que não cortei a outra jugular? Deprimente. Talvez o velho barbeiro tenha feito a mesma coisa comigo. Acho que sim.
4. Além do coelho que capotava em minhas lembranças de menino, eu teria o ectoplasma e a catinga desse outro, cinza e branco, que passaria a me assombrar ao longo dos anos. Uma catinga doce, grudenta.
5. Havia desperdiçado a chance de esquecer os 80’s. Sim, porque eu me meti naquela cidade perdida no tempo e no espaço, e estava decidido a ser o maior carrasco de coelhos da Alta Mogiana para me ver livre das dançinhas epiléticas do Arnaldo Antunes nos palcos do Aeroanta, bem como havia rejeitado a ideologia que o Cazuza queria ter enquanto vislumbrava um museu de grandes novidades a partir de uma piroca enfiada na respectiva bunda, ou seja, nem a epilepsia nem a ideologia daquela época me diziam respeito, eu não queria nada disso para mim.
6. Me ferrei.
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