Na Mídia

16 de abril de 2010

Dora Kramer – “O PODER PELO AVESSO”

Dora Kramer está lançando seu livro “O poder pelo avesso” (Barcarolla), com 99 crônicas políticas selecionadas de sua produção diária na imprensa escrita.

Um livro de análise política? Sem dúvida, e dos melhores. Alcança os bastidores do poder, desmascara as trapaças dos políticos, suas manobras de má-fé, seus erros táticos, suas omissões e comissões vergonhosas, denuncia as sutilezas da corrupção, e isso tanto no governo como na oposição. Mas “O poder pelo avesso” constitui, em primeiro lugar, um severo tratado de ética política. Parte da ética e sobrepõe suas exigências aos desmandos da política e seus agentes.

A antinomia moderna entre ética e política (Maquiavel), a idéia de que os fins justificam os meios, foi desastrosa. Dora parece retomar o ponto de vista de Aristóteles, para o qual a política é a grande organização da moralidade. É na convivência política, no âmbito da cidade, sob o império das leis, que o bem do homem se realiza em plenitude. O Estado só existe para criar e sustentar as condições necessárias à vida ética (que é a vida feliz).

Não é que se deva injetar a ética na prática da política. A ética precede a política, e esta é sua serva. Sem ética, a política perde sua razão de ser e degenera num jogo sem limites de ambições cegas no qual tudo é permitido. O compromisso com a ética é a premissa “a priori” de toda concepção e de toda atividade política.

No artigo “Os bobos da Corte” Dora denuncia com clareza plástica o divórcio entre ética e política, com conseqüências absurdas e grotescas, Os “bobos da Corte” são os artistas que levantaram a bandeira do descaso à ética para justificar seu apoio à candidatura de Lula à reeleição. “Não estou preocupado com a ética do PT ou com qualquer tipo de ética”, disse Wagner Tiso, informando ao respeitável público que só está preocupado com o jogo do poder.”

Wagner Tiso foi acompanhado com brilho por Paulo Betti, “a política só se faz com as mãos sujas”, e por Luiz Carlos Barreto: “Se o fim é nobre, os fins justificam os meios.” E mais: “Mensalão não é roubo, é jogo político.”

Os bobinhos da Corte não percebem que sem limites éticos o jogo do poder se transforma na autofagia selvagem da política. Esta se devora a si mesma e em matéria de limite ético e lei, a única que sobrevive é a lei da selva. Face a atitudes irresponsáveis como estas é que se compreende o alcance daquelas palavras pronunciadas por famoso humorista: “Restaure-se a moralidade, ou locupletemo-nos todos.”

É de se perguntar se as 99 crônicas, publicadas entre 2001 e 2009, ganham alguma coisa reunidas em livro. Claro que fazem diferença. Publicadas uma a uma, dia a dia, as crônicas se perdem na memória como que referidas a fatos pontuais, isolados e sem nexo uns com ouros. Ao passo que enfeixados em livro os mesmos textos adquirem enredo, conjugando-se entre si numa trama unificada, como os capítulos de um documentário sinistro mostrando a progressão de nosso processo de degeneração política.

Não é por acaso que as análises de Dora não disfarçam um tom constante de indignação, a indignação dos justos frente ao espetáculo a cada dia mais constrangedor de nosso cenário político. Imparcialidade? Sem dúvida. Na sua Introdução a autora discute a questão, acentuando que a imparcialidade do jornalista não é a mesma do juiz. O juiz é imparcial no sentido em que está vinculado à lei e só à lei. O jornalista é imparcial na medida em que defende sua “autonomia mental”. O juiz não pode escolher nenhum lado, está submetido rigidamente ao disposto na lei. O jornalista será imparcial na medida em que recusa o jugo de qualquer pressão contra sua autonomia mental. Mas, preservada esta, o jornalista não está proibido de escolher este ou aquele lado nas questões que analisa.

Digo sempre que a imprensa já nasceu engajada. A imprensa cresceu nas lutas do século XVIII contra o absolutismo monárquico. Ela está originariamente vinculada à liberdade e aos valores democráticos da justiça e da igualdade. Por isso, ao contrário do magistrado, a imprensa é parte no jogo dos conflitos políticos, sociais e culturais. Como escrevi de certa feita: a imprensa é uma tribuna, não é um tribunal.

Com todo o direito, o jornalista de brio pode e deve indignar-se em relação aos atentados contra a liberdade, a justiça e a igualdade, e contra aa malfeitorias dos políticos que existem para serem os guardiões da ética pública. Dora sabe indignar-se, e sempre com muito estilo. Imparcialidade, no jornalismo, não significa impassibilidade.

Gilberto de Mello Kujawski

e-mail: gmkuj@terra.com.br

www.gilbertokujawski.com.br


Fonte: Gilberto de Mello Kujawski

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