Na Mídia

8 de dezembro de 2009

Dorival Caymmi longe do universo da pureza

Dorival Caymmi é urbano, é moderno. Não é apenas o compositor e cantor que traduziu com pureza artística a essência baiana. “Ele recriou a Bahia com uma linguagem do rádio e do cinema”, diz André Domingues, autor de Caymmi Sem Folclore, que será lançado na Livraria Cultura, às 18h30 de hoje.

Pesquisador musical, Domingues apresenta uma leitura que desvenda “um projeto coerente de cultura nacional em Caymmi”. A diferença é que, para ele, a arte caymmiana não está no universo do folclore, dos pescadores e do candomblé, mas no mundo do rádio, do disco e do cinema ou, para resumir numa expressão apenas, no contexto da indústria cultural.

Consciente das transformações históricas, Caymmi procurou dar certo, adotando a estratégia da tentativa e erro. Essa afirmação, diz Domingues, esbarra na ideia de que o compositor baiano era “uma pedra bruta manipulada pela memória social de sua terra”. Ele afirma que “a produção baiana ocorre no Rio, na era de ouro da música popular”. “Na terra natal, ele fazia marchinhas cariocas.” Domingues acrescenta que “a Bahia de Caymmi é carioca, reflete o imaginário nacional” da primeira metade do século 20. No livro, pretende mostrar as ligações feitas por um pensamento nacionalista entre a arte de compositores populares e uma identidade brasileira baseada em elementos folclóricos.

Em Caymmi Sem Folclore, adaptação de mestrado para USP, Domingues, de 33 anos, propõe um recorte temporal. A análise vai de 1938 a 1959, período em que o músico consolida a carreira e cria a maior parte do seu repertório – das 109 canções compostas 69 vêm a público no intervalo de 20 anos. Sua trajetória começa com O Que É Que a Baiana Tem, primeira gravação, e termina com o LP Chega de Saudade, passando pelos anos 1950, quando se dedicou aos sambas-canção.

Domingues diz que o ponto final se deve a um detalhe escrito por Tom Jobim na contracapa de Chega de Saudade: “Eu acredito em João Gilberto porque ele é simples, sincero e extraordinariamente musical. P.S.: Caymmi também acha!”

Dessa maneira, aquela revolução musical é identificada com o artista baiano, filho de uma família de classe média de Salvador. “Um estudo sobre a obra de Caymmi posterior à bossa nova exige uma complexidade que meu livro não abrange”, explica. Dorival Caymmi (1914-2008) “respondeu com a sua obra a estímulos diretos” do momento histórico. “Ele foi um homem que viveu intensamente o seu tempo.”

Serviço

Caymmi Sem Folclore. De André Domingues. Editora Barcarolla. 150 págs., R$ 25. Livraria Cultura Artes. Av. Paulista, 2.073, 3285-4457. Hoje, 18h30


Fonte: O Estado de S. Paulo - SP

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