Na Mídia

16 de março de 2011

Mário Bortolotto, DJ

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É praticamente impossível não pensar em algum tipo de analogia discográfica para apresentar DJ – Canções pra Tocar no Inferno, mais recente livro do dramaturgo Mário Bortolotto; difícil também não considerar sub-produtos, de preferência em vinil, possíveis para um livro que basicamente exala música a cada par de frases demolidoras. Numa paráfrase meio torta dos velhos Flaming Lips do Oklahoma, as crônicas crueis desse DJ são como transmissões do satétile literatura-marginal estrelando as tramas tosco-surreais e violentas do mais implacável dos beatniks da praça (Roosevelt e adjacências transcendentes e mitológicas).

Mas como o ator e roteirista (ex-seminarista londrinense da classe 62) Bortolotto também ataca como compositor e vocalista das bandas Saco de Ratos (Blues) e Tempo Instável (do disco Cachorros Gostam de Bourbon), é provável que rolasse confusão – se DJ é livro é porque não é disco, e se por acaso a idéia fos se pensar num disco duplo de encarte elaborado, é bem provável que MB cravasse que isso é coisa de rock progressivo, coquetel com guarda-chuvinha, que o lance é mais embaixo: blues, jazz, rock das margens sem firulas, punk rock. Cerveja e vinho barato. E muito cinema e quadrinhos e, claro, literatura. Afinal é disso que se trata.

Lançamento da Editora Barcarolla, DJ – Canções pra Tocar no Inferno (165 pgs.) figura com destaque na prateleira dedicada à consistente produção do autor (prêmio APCA em 2000 pelo conjunto da obra), ao lado das outras pequenas gemas da sua atividade ficcional, Mamãe não Voltou do Supermercado e Bagana na Chuva (completam o espaço sua gigante produção teatral, registros poéticos e textos jornalísticos e de corte blogosférico).

O livro, dividido em 4 partes, revela um lado mais maduro do fundador do celebrado grupo de teatro Cemitério de Automóveis. O que no caso quer dizer carpintaria mais elaborada nas tramas e ampliação de escopos existenciais-filosóficos; o cinismo deseperado, o deboche da sabedoria etílica e as múltiplas visões escrotificantes da vida continuam firmes e fortes (sua articulação mais requintada).

Na primeira parte, Canções pra Tocar no Inferno, os 9 contos são batizados, inspirados por clássicos como “Jealous Guy” (John Lennon) e “Given The Dog A Bone” (AC DC). “Knockin’ On Heaven’s Door” é impagável; divertido encontro no além de figuras como Paulo Francis, Itamar Assumpção, Paulo Leminski e Vinícius de Moraes.

Aquele Olhar Estudado de James Dean é o destaque dentre os seis Flashbacks propostos na segunda parte do livro. Vertiginoso fluxo de consciência bukowskiano, trata-se de um alucinante desfile de figuras e referências em torno de personagem com certo ar de James Dean – com a participação de Isabelle Adjani, Bob Dylan, Neil Young, os Blues Brothers, Alfred Jarry, Brian Jones, Jimi Hendrix, Eric Clapton, James Cagney e Rimbaud. E o seriado Chips.

Se Nick Cave se dedicasse às narrativas curtas, provavelmente apareceria com algo parecido aos três Evangelhos que compõem a terceira parte desse set dos infernos.

E são quatro as baladas noturnas, reunidas em Midnight Songs, que encerram DJ – Canções pra Tocar no Inferno.

Não deixa de ser curiosa a presença de Phil Anselmo, do Pantera, na posição de responsável pela epígrafe do livro. Mas na realidade dessas páginas furiosas da nossa literatura contemporânea, nada poderia ser mais eloquente: “Step aside for the cowboys from hell!”. Uma possível imagem para o impacto da leitura teria a ver com a capa do disco seguinte da banda texana, Vulgar Display of Power: um verdadeiro soco na cara, um atordoante choque de realidade como só a boa literatura é capaz de oferecer.

Amostras:

O cara chegou, como costumava chegar todas as noites. Totalmente chapado. De todas as substâncias possíveis e inimagináveis. Olhou aquele ambiente familiar. Pensou: “Eu já estive aqui. Conheço esse lugar.” Estreitou seus olhos e estapeou sua cabeça numa tentativa débil de encaixe de ideias & parafusos. Depois de um tempo cofiando a barba rala e o cavanhaque um tanto quanto metrossexual, chegou à conclusão de que tinha voltado para casa. Era isso. Ele estava em casa. Mas que merda estava fazendo em casa às quatro e meia da madrugada?(…) Percebeu então que havia voltado para sua casa e para sua mulher. Achou que havia finalmente atingido o nirvana de sua loucura. Então viu o Gato Félix passar desfilando calmamente pela sala. Enfim, algo agradável de se ver. Toda a elegância serena do gato Félix, blasé como são todos os gatos, indiferente à presença do velho junkie ilhado no meio da sala.

(trecho de Salvem o Félix, em Midnight Songs)

A imaginação do VELHO ROCK STAR não tinha limites. Flanava lisergicamente entre séries de tv em preto & branco, poemas de Verlaine e hits do Peter Frampton. No trajeto de sua casa na São Luís até o Marajá, teceu uma rocambolesca saga onde figuravam condes sanguinários, virgens castradoras e mestres kung-fu. Já previa o pior. E o pior para ele era sempre algo não menos que terrível. Uma catástrofe de consequências imprevisíveis. Sentia cócegas intermitentes na garganta e já ameaçava cantar I’m in You quando chegou na lanchonete e encontrou o amigo ESCRITOR amparado ternamente pelo amigo BIÓLOGO. Seria quase comovente, se a situação não fosse de intensa gravidade.

(trecho de I Don’t Need No Doctor, em Canções pra Tocar no Inferno)


Fonte: Atire no Dramaturgo - SP

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