Na Mídia

15 de julho de 2010

Raúl RIVERO, Provas de contato – Trad. de José Rubens Siqueira

Provas de contato é o primeiro livro traduzido e publicado no Brasil do jornalista e escritor cubano Raúl Rivero1. Sua obra, entretanto, não começou a ser produzida recentemente Rivero publicou inúmeros livros de poesia e de relatos desde o final dos anos sessenta, dentro e fora da ilha. Trabalhou como jornalista em diversas publicações cubanas, além de ter sido correspondente em Moscou e durante a guerra em Angola nos anos setenta. Desde os anos noventa, rompeu com o governo cubano, tornou-se jornalista independente e militante pelos direitos humanos. Em 1995, fundou a agência de notícias Cuba Press e incentivou o jornalismo independente na ilha. Por meio da sua agência, enviava por fax colaborações para publicações estrangeiras como o jornal El País, a revista Encuentro de la cultura cubana, publicada em Madri, e a organização francesa Repórteres sem fronteiras.

As crônicas e matérias reunidas em Provas de contato são frutos do trabalho de Raúl Rivero como jornalista independente nos anos noventa em Cuba. Suas reportagens expressam o olhar de uma camada da população, os intelectuais críticos, e ainda que sejam visões parciais da realidade cubana, constituem-se em fontes de valor inestimável para o historiador que busca elementos para compreender a história do tempo presente. Essas crônicas podem também ser pensadas como fontes para trabalhos de investigação situados no cruzamento da história do cotidiano, da micro-história e da história política. Os depoimentos registrados por Rivero possuem claramente um tom biográfico e são testemunhos de uma geração de intelectuais que participou ativamente na construção da Revolução Cubana, mas que se viram frustrados em seus ideais e projetos com a crise e as limitações que vivenciaram a partir dos anos noventa em seu país.

Por escrever esses e outros relatos e publicá-los fora da ilha, já que não tem mais permissão para fazê-lo nas publicações cubanas, Rivero foi preso em março de 2003, juntamente com outros setenta e quatro jornalistas, bibliotecários independentes e militantes de oposição. Condenado de forma sumária a vinte anos de prisão, foi transferido para uma prisão bem distante de Havana. Solto graças à pressão internacional em novembro de 2004, exilou-se na Espanha em 2005, onde vive em Madri.

Muitos dos presos junto com Rivero faziam parte de grupos de direitos humanos e de oposição, que pressionavam o governo a realizar eleições, e a permitir a participação de outros partidos políticos que não apenas o Partido Comunista Cubano. Alguns dos presos foram condenados a vinte sete anos de prisão, o que mostrou que o governo cubano não estava disposto a promover reformas políticas e buscou com estas medidas liquidar não só os dissidentes, mas abafar qualquer descontentamento de setores internos do próprio PCC. A estas prisões, somou-se poucos dias depois o fuzilamento de três cubanos que seqüestraram uma balsa em Havana para tentar fugir para a Flórida. Os seqüestradores foram sumariamente condenados e executados. Estes fatos levaram a que muitos intelectuais da Europa e da América Latina se manifestassem, contrários às medidas repressivas do governo cubano.

Como pano de fundo das histórias relatadas em Provas de contato, está a crise econômica, política e social que tomou conta de Cuba no final do século XX, após a queda do muro de Berlim e o desmantelamento da União Soviética. Com o fim da União Soviética em 1991, o governo cubano foi obrigado a promover mudanças para enfrentar os graves problemas que assolaram o país, decorrentes do fim do comércio privilegiado de petróleo e outros produtos industrializados que eram comercializados a preços subsidiados pela União Soviética e pelos países do Leste Europeu, em troca do açúcar cubano. O colapso do bloco soviético deixou a ilha numa situação deplorável no início dos anos 90, as dificuldades de abastecimento, inclusive de alimentação, provocaram uma forte carestia, e a falta de combustível, entre tantos outros produtos, quase paralisando a sociedade cubana; os apagões tornaram-se freqüentes deixando evidente a crise energética que afetou inclusive a produção do açúcar, o principal produto de exportação. Cito as palavras de um homem anônimo, personagem de uma das matérias de Rivero, que estava prestes a sair de Cuba, pois havia conseguido visto para emigrar para os Estados Unidos: “Adeus ao Período Especial, adeus à fome física, a que dói e dá sono e insônia e, depois, vontade de vomitar”. 2

Este período foi denominado de período “especial”, já que significou uma abertura para que o capital estrangeiro investisse na ilha, saída encontrada pelo governo diante de seu isolamento internacional3. Os primeiros investimentos feitos pelos capitais europeus e canadenses se direcionaram ao setor do turismo, com a construção de grandes hotéis baseados em empresas mistas, ou seja, o governo autorizou a abertura de cada investimento e tornou-se sócio destes empreendimentos. O governo também controlou a contratação e o pagamento da mão de obra, recebendo em dólar das empresas e pagando em pesos os trabalhadores cubanos. No decorrer dos anos noventa, uma série de leis foi promulgada para estimular e beneficiar os investimentos estrangeiros na ilha.

A abertura econômica na ilha também foi sentida por meio da legalização do dólar, com a criação dos pesos cubanos conversíveis em 1995, e com o fim do monopólio do comércio exterior, até então realizado somente pelo governo. Em relação aos trabalhadores cubanos, o governo autorizou-os a trabalharem como autônomos e abrirem pequenos negócios, como os restaurantes familiares (paladares) ou o aluguel de casa para estrangeiros a partir de 1996, sujeitos aos inúmeros impostos. O setor agrícola também foi afetado com a criação das Unidades Básicas de Produção Cooperativa, que permitem aos seus produtores obtenção de lucro com a venda dos excedentes nos mercados agropecuários, em que seus preços flutuam livremente, sem intervenção do Estado.

Estas e outras medidas introduziram elementos do sistema capitalista na ilha e trouxeram à tona a desigualdade social. A diferenciação social é visível entre os que têm acesso a moeda estrangeira, que são os trabalhadores relacionados ao turismo, por meio de gorjetas, aqueles que recebem dinheiro de familiares residentes no exterior ou os trabalhadores por conta própria. O surgimento da prostituição também foi fruto desta desigualdade, em que os setores mais desfavorecidos da população, em muitos casos os negros, buscaram sua sobrevivência como jineteros oujineteras, oferecendo esse serviço não só aos turistas estrangeiros, mas também aos trabalhadores urbanos e camponeses do interior, que se dirigiam a Havana para vender seus produtos excedentes nos mercados agrícolas da capital, como mostrou Rivero em suas crônicas. Além da diferença do modo de se vestir, já que as prostitutas que atendem os estrangeiros usam roupas de marca e têm geralmente boa aparência, as jineteras que trabalham para os cubanos são mais pobres, não possuem nenhuma familiaridade com a língua inglesa e são na maioria dos casos mais velhas, acima dos trinta ou dos cinqüenta anos, ainda que Rivero tenha também constatado entre as nacionais meninas muito jovens, na casa dos doze anos4.

A crise também fez com que muitos cubanos passassem a realizar atividades consideradas ilegais para sobreviver, pois os baixos salários e a dificuldade de se obter os produtos de primeira necessidade em pesos cubanos e com o carnê de racionamento tornaram-se cada vez mais agudas. Em Provas de contato, Raúl Rivero mostrou algumas das atividades que os habitantes de Havana inventaram para garantir a sobrevivência: desde a cubana que organiza partidas de jogos clandestinos em sua casa, suborna o policial para não ter problemas com a repressão e ganha seu sustento dessa forma; passando pela história de um dos banqueiros que gerencia um jogo clandestino de loteria, a “bolinha”; até o relato de outro que ganha a vida criando um gavião de briga, que luta vitoriosamente contra gatos e faz com que seu dono fature muitas apostas.

Muitos foram os depoimentos de presos que Rivero colheu e reuniu neste livro: o relato de cubanos que tentavam sair do país pela base militar estadunidense de Guantánamo e fracassaram; histórias de muitos militantes em prol dos direitos humanos e de organizações de oposição que se tornaram presos políticos. Rául Rivero denunciou as duras condições dos presídios nos quais são submetidos presos comuns e políticos, além das limitações de um sistema judicial que inclui a pena de morte.

A história do jovem Michel Charnícharo Pláceres foi significativa da insatisfação da população com as duras condições de vida durante o “período especial” e com o governo cubano. Esse jovem e muitos outros saíram às ruas para protestar em Havana, em 5 de agosto de 1994, numa revolta no centro da cidade, em que muitos manifestantes chegaram a gritar lemas contra Fidel Castro e a favor da liberdade. Os revoltosos tiveram fortes enfrentamentos com a polícia e com os agentes de segurança. Muitos foram presos, como foi o caso de Michel Charnícharo, acusado de “desordem pública”. Condenado a três anos, quando saiu da cadeia, o jovem de vinte anos não encontrou mais trabalho, pois estava marcado como “contra-revolucionário”.

Outra crônica de Raúl Rivero narra a história do escritor Reynaldo Hernández Soto, preso em 1989 e condenado a três anos por escrever uma carta aberta a Fidel Castro e enviá-la às publicações cubanas. Na carta, Hernández Soto manifestava suas opiniões sobre o processo realizado contra o general Arnaldo Ochoa, herói de guerra na Angola. O general acabava de retornar da África com as tropas cubanas e manifestava em reuniões privadas com outros militares seu descontentamento com a situação na ilha e a necessidade de uma abertura econômica e política em Cuba, quando foi preso. Em 1989, Ochoa, o coronel Tony La Guardia e outros importantes membros do governo cubano foram acusados de tráfico de drogas e executados. O caso, além de mostrar as relações em Cuba com o comércio ilegal de drogas, trouxe à tona a indisposição do governo em promover reformas políticas, como as que vinham acontecendo na União Soviética e nos países do Leste Europeu, com a manutenção da centralização política na ilha. A carta de Hernández Soto e seu questionamento à condenação de Ochoa mostrava os limites da liberdade de expressão e criação na ilha.

Um simples sonho podia ser o elemento desencadeador da prisão, como aconteceu com um homem identificado apenas como Ibrahim, que cumpriu pena de dois anos, na detenção de Boniato, região oriental de Cuba. No sonho, Ibrahim e sua família estavam remando num bote e encontravam no meio do mar um barco: um marinheiro lhe advertia que ele e sua família estavam equivocadamente indo com sua embarcação para a Jamaica. Ao contar o sonho para amigos e conhecidos, foi preso após uma semana por agentes da Segurança do Estado e julgado culpado por “tentativa de saída ilegal do país”. O sonho de Ibrahim transformou-se em realidade a partir de 22 de agosto de 1994, quando milhares de cubanos se lançaram ao mar em pequenas e improvisadas embarcações, na esperança de atingir a costa da Flórida, nos Estados Unidos. Os cubanos que tentaram esse êxodo maciço em balsas nos anos noventa ficaram conhecidos como balseros.

O grande controle estatal sobre a vida cotidiana dos indivíduos tem seus pilares nos agentes da Segurança do Estado e nos Comitês de Defesa da Revolução (CDR), que atuam em cada bairro ou quarteirão, monitorando a conduta da população, mas também passou a ser exercido pelo Sistema Único de Vigilância e Proteção (SUPV). Trata-se de um órgão paramilitar que organiza as reuniões de repúdio. Essas reuniões surgiram em Cubanos ano de 1980, quando cerca de cem mil pessoas deixaram a ilha, entre elas muitos escritores, artistas e homossexuais, num episódio que ficou conhecido como o êxodo pelo porto de Mariel. Nessa época, as reuniões tinham o objetivo de tentar impedir, humilhar ou atemorizar aqueles que queriam se exilar, muitas vezes chegou-se a agressão física e não só verbal contra os prováveis viajantes. Nos anos noventa, as reuniões consistiam em cercar a residência dos jornalistas independentes que exerciam seu trabalho na ilha e não queriam abandonar o país. Pessoas de bairros distantes eram levadas para estes locais onde sofriam ataques verbais, que em certos casos incluíram ameaças de espancamento e de morte. Para Raúl Rivero, consistia-se em uma “festa de ódio estatal”, um “retorno à barbárie”, um “processo de exorcismo” e podia ser comparada a momentos da Revolução Cultural Chinesa5.

As limitações à liberdade de criação e expressão, o monitoramento dos jornais e revistas foram questões fundamentais levantadas nas matérias escritas por Raúl Rivero e facetas da política cultural estabelecida na ilha pelo governo cubano. Um exemplo presente no livro são os espaços para o humor nas publicações e nos meios de comunicação de massas. Segundo Rivero,

só há lugar para um humorismo formal, de modelo stalinista, que tende sempre a colocar as coisas em preto e branco e em termos tão simplistas que são ofensivos à capacidade e inteligência do destinatário6.

As normas estabelecidas para as manifestações culturais pela política cultural oficial pautaram-se j á desde os anos sessenta por uma tentativa de direcionar as produções intelectuais e artísticas em Cuba, o que levou muitas vezes à aplicação do “realismo socialista” cubano. Sob inspiração da política cultural soviética no período de Stalin, o realismo socialista foi imposto com maior ênfase em Cuba nos anos setenta. Enfatizaram-se as obras didáticas e otimistas, que faziam referências explícitas e apologéticas aos grandes momentos e conquistas da Revolução e censuraram-se os intelectuais e artistas que buscavam criar produções culturais mais autônomas em relação a esses parâmetros7.

A censura não foi apenas um problema dos anos sessenta e setenta em Cuba, já que nos anos noventa os jornalistas independentes continuavam a ser impedidos de publicar na ilha e, em muitos casos, forçados a abandonar o país. Em Provas de contato, Rivero contou a história de Ana Luisa López Baeza, jornalista independente que foi obrigada a se exilar. A sua experiência não era única, sua “tragédia individual” fazia parte de um êxodo que há mais de quarenta anos se repetia continuamente aos cubanos. Nessa crônica, Raúl Rivero declara seu desejo de continuar a viver na ilha: “é preciso fundar a permanência, porque permanecer sempre será um antídoto contra o desencanto. E um veneno para o esquecimento”8. O que sabemos é que, com a prisão em 2003, tornou-se insustentável sua permanência na ilha e, quando foi libertado, Rivero teve de seguir os mesmos passos de Ana Luisa López Baeza e de tantos outros intelectuais: o exílio.

 

1 RIVERO, Raúl. Provas de contato. Trad. de José Rubens Siqueira. São Paulo: Ed. Barcarolla, 2005.         [ Links ]
2 RIVERO, Raúl. Op. Cit, p. 90.
3 Para uma análise das transformações econômicas e sociais em Cuba nos anos noventa ver: MESA-LAGO, Carmelo. Economia y bienestar social en Cuba a comienzos del siglo XXI. Madri: Editorial Colibrí, 2003.         [ Links ]
4 RIVERO, Raúl. Op. Cit, p. 58-63.
5 RIVERO, Raúl. Op. Cit, p. 128-130.
6 RIVERO, Raúl. Op. Cit, p. 125.
7 SERRANO, Pío. “Quatro décadas de políticas culturales”. Revista Hispano-Cubana, Madri, n.4, maio-setembro de 1999, p.35-54.         [ Links ]
8 RIVERO, Raúl. Op. Cit, p. 96.


Fonte: Revista de História

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