Na Mídia
26 de julho de 2011Uma pick-up demoníaca
Mário Bortolotto é um mestre na arte de mostrar o lado escuro da vida. Suas palavras encarnam toda a legião de bêbados, vagabundos, sexo, prostitutas e frustrados de toda sorte que perambulam por seus textos.
Seja nos palcos teatrais ou nos livros, eis um autor que tem como missão mexer nas feridas: as minhas, as suas e as nossas, sem qualquer pudor. Suas palavras são como fraturas expostas, assim como o são as de Allen Ginsberg, William S. Burroughs e Jack Kerouac – autores caros à formação do próprio Bortolotto.
Encerrei há poucos dias a leitura de DJ – Canções Pra Tocar no Inferno (164 páginas, editora Barcarolla), livro de contos lançado pelo dramaturgo, escritor e roteirista. Um pequeno tratado sobre o desregramento de todos os sentidos & outras “cositas” mais, como já dizia o velho Rimbaud.
A obra reúne 25 histórias inspiradas por clássicos do blues e do rock, um set list caprichado: Jealous Guy (John Lennon), I Dont’ t Need No Doctor (Ray Charles), Stand by Me (Darrel Mansfield, Jerry Leiber, Mike Stoller e Bem E. King), entre outros.
“Vivemos em um mundo onde a fragilidade de nosso caráter babão e obsequioso se confunde com aspereza de nossos sentimentos mais torpes, por isso essa descontinuidade, por isso tudo é tão inconsumptível. E por isso a puta nua aconchegada em meu ombro foi mais uma emoção que bateu na trave, que não se completou como devia”, confessa o personagem de Swing on Dow (Donavon Frankenreiter).
Vale citar de Desesperar Jamais, canção-título de um chato Ivan Lins, que serve de mote para uma situação desagradável vivida por um casal de namorados num motel. Uma pérola do humor ferino do autor.
Bortolotto também incluí outros sets na sequência, sob as temáticas Flashback, Evangelhos – a saga do massagista “Madalena”, e Midnight Songs, um dos belos momentos do livro, que, como o próprio título diz, traz algo que só a noite pode oferecer em termos existenciais.
Lendo o livro, fica praticamente impossível não se lembrar de uma das mais amadas praças paulistanas, a Roosevelt, palco tantas vezes das (des)venturas do autor-personagem. Mas não é só, têm também os botequins de Pinheiros, os inferninhos da Augusta, referências geográficas paulistanas que mesmo não explícitas, emergem com força das páginas de DJ – Canções Pra Tocar no Inferno.
A prosa demoníaca de Bortolotto ecoa como um vagido feroz no meio da grande noite da literatura brasileira. Uma voz dissonante, carregada de alteridade, que não espera redenção alguma, mas que inspira e vez pensar.
Fonte: Beleléu - SP



