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Eclipse da Moral – Kant, Hegel e o nascimento do cinismo contemporâneo
Ficha Técnica
Eclipse da Moral - Kant, Hegel e o nascimento do cinismo contemporâneo
Sílvio Rosa Filho
R$ 46,00
682 páginas
Lançamento: maio / 2010
ISBN: 978-85-98233-46-8
Quando a moralidade entrou em eclipse após a Revolução Francesa, o cinismo contemporâneo começou a dar seus primeiros passos. Esse “fenômeno” é o tema do livro “Eclipse da Moral”, do professor de filosofia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Sílvio Rosa Filho. A publicação é uma coedição da Editora Barcarolla e Discurso Editorial, com apoio da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo). O lançamento acontece no dia 6 de maio, na Livraria da Vila (Rua Fradique Coutinho, 915), às 19h.
A obra procura ater-se à organização do repertório que torna possível reformular o problema da moralidade nos novos tempos, ou seja, a passagem da idade Moderna para a Contemporânea, circunscrito na época em que a prosa crítica de Hegel atingiu a maturidade e o discurso moral passava da crise ao declínio.
Na Fenomenologia do espírito e nas primeiras aulas que ministrou sobre filosofia do direito, Hegel desvendou a gênese de uma convergência entre a abstração moral, de origem kantiana, e abstrações de mais recente feitio, as que o processo de transição ao novo tempo ia produzindo em seu rastro.
Pelos anos de 1807-1817, o filósofo alemão deu forma a uma micrologia bastante específica, onde se condensam as dinâmicas de moralidade e não-moralidade. Onde moralidade e não-moralidade só fariam negar-se ou repelir-se, Hegel investigou injunções, sondou compromissos, avaliou dissensões. E chegou a ensaiar o delineamento de microfiguras que melhor representassem ou ilustrassem a questão. A maneira pela qual essas figuras contracenam pode vir cifrada como honestidade involuntária das imposturas, sinceridade indesejada na simulação ou, ainda, contrapartidas de uma aposta no fortuito.
Assim que a “modernidade” vai efetivamente tomando a dianteira, o próprio discurso filosófico comparece, a seu modo, desestabilizado no que respeita a seu estatuto argumentativo, neutralizado no que concerne à acuidade de seus efeitos críticos. Desta forma, ao cínico é que é permitido expor, às claras, aquilo que se escondia, hipocritamente, nas imediações do dizer e do fazer que assume o moralista.
Primeiramente, como estudo sobre a transição ao novo tempo, o livro apresenta os modos principais de representar desenraizamentos de cunhagem modernizada: a nostalgia e a exaltação, a moderação e o romantismo, flutuando na superfície da época. A partir daí, investiga os impasses reinscritos na ordem do dia.
Em segundo lugar, como exposição das reviravoltas do discurso moral, o livro acompanha as atualidades do extemporâneo, moeda moral que circula, em solo alemão, como desprovida de lastro. Desta feita, flutuam em estado nascente, as máscaras de circunstância. Do ativista que se descobre supérfluo até chegar ao hipócrita que no fundo desmascara a si mesmo, o leitor está convidado a meditar sobre um rodízio vertiginoso de fisionomias de empréstimo. O protelacionista, nesses bastidores da ação moral, posa de indispensável, assim como pode, mas só em caráter provisório, tomar fumos de asceta. Enquanto o perfeccionista permanece confinado nos recônditos da vida interior, o amoralista, lançado ao exterior, ora passeia ao sabor de bem-vindos acasos, ora se vê entregue a toda sorte de inconveniências. Por esse elenco disponível para o desempenho de papéis intercambiáveis, o attentisme do dever-ser, em regime de espera permanente, não cessa de promover o sagracionismo do ser secular. Em quando se apressa em mudar de cenário, persiste noutra microfigura, insistindo na celebração de um sincretismo que é tanto menos efetivo quanto mais providencial.
São todos, por um lado, sintomas de uma negação imatura da moralidade: é que, ainda ingênuo, esse cinismo precoce é passível de designação, suscetível de desmascaramento. Por outro lado, trata-se de formas de ação que não se limitam a deformar a matéria mesma do discurso moral: é que, com elas, precisamente, a individualidade moderna, quando moralmente desobrigada, vai aprendendo a tornar-se outra figura singular, “ultra” ou “pós-moderna”. Ainda abstratamente.
Nada disso chega ao ponto de anular, nem sequer ocultar, a persistente necessidade de superação. O pensamento de Hegel, com efeito, não se restringe a constatar a gestação interrompida de mudança, nem a elaborar uma sintomatologia da desorientação. Pois cabe a esse filósofo conceber – como experiência e como emancipação – o desbloqueio do novo.
Sobre o autor
Silvio Rosa Filho é professor da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), graduou-se em 1995 e doutorou-se em 2002 pelo Departamento de Filosofia da FFLCH-USP, com estadia na École Normale Supérieure (1998-2000).
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