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Histórias do samba de São Paulo
Ficha Técnica
Batuqueiros da Paulicéia – Enredo do Samba de São Paulo
Osvaldinho da Cuíca e André Domingues
Editora Barcarolla
R$ 34,00
216 páginas
Lançamento: fevereiro / 2009
ISBN: 978-85-98233-38-3
Uma frase infeliz de Vinícius de Moraes, a famosa “São Paulo é o túmulo do samba!”, fez cristalizar-se um antigo preconceito contra o samba paulista. Os trabalhos de grandes sambistas de São Paulo, como Henricão, Geraldo Filme, Adoniran Barbosa e Toquinho (o mais prolífico parceiro do poeta), sempre foram lembrados como casos que desmentiam tal injustiça.
Mas uma defesa do samba de São Paulo, como um todo, dificilmente passava de um esboço. Até porque, em boa medida, os próprios paulistas não conhecem completamente a sua grandeza. Daí o impulso do sambista Osvaldinho da Cuíca e do crítico e pesquisador André Domingues se unirem para sistematizar e escrever a história do samba paulista no livro “Batuqueiros da Paulicéia – Enredo do Samba de São Paulo”, lançamento da Editora Barcarolla.
A obra segue as diversas trilhas do samba de São Paulo, apontando seus nomes e acontecimentos fundamentais desde o início do século XX até o presente, do remoto samba-rural ao samba-de-raiz de hoje em dia, passando por diversas manifestações como a marcha-sambada, a batucada de engraxates, o samba-rock e as experiências da chamada Vanguarda Paulistana.
O ponto de partida é a própria dificuldade em encontrar uma definição para o “samba” produzido no Estado de São Paulo, haja vista a grande diferença de características entre as diversas versões que coexistiam no início. O termo samba-rural foi uma tentativa frustrada de reunir essa diversidade em uma única expressão. Em São Paulo, a palavra “samba” só ganhou sentido comum, entendido em qualquer outra parte do Estado, quando se falava no samba-de-bumbo das popularíssimas festas de Pirapora Bom Jesus. O termo nasceu da inclusão do bumbo nas cantorias profanas dos devotos, as quais costumavam ter apenas o acompanhamento de violas, cavaquinhos, chocalhos e batidas de mãos e pés. Desprezado por grande parte dos estudiosos, o samba-de-bumbo deixou pouquíssimos registros.
Antes do seu repentino crescimento, entre o final do século XIX e o início do seguinte, a cidade de São Paulo, embora capital do Estado, ainda não centralizava a cultura paulista e estava longe de ser a cidade cosmopolita tal qual a conhecemos hoje. Ao contrário, tinha fortes características de uma cidade interiorana, com uma certa resistência da elite em aceitar influências dos imigrantes. Musicalmente, prevalecia em São Paulo uma manifestação trazida pelos portugueses abastados: a seresta, cultivada, sobretudo, pelos estudantes de direito do Largo do São Francisco. Nas camadas mais pobres da sociedade, por outro lado, os negros cultivavam suas próprias formas de expressão musical, em geral ligadas a uma religiosidade sincrética, que misturava ritmos dos orixás africanos aos de santos do cânone cristão.
Os cordões carnavalescos
Na primeira década do século passado, começa a criar corpo a formação de grupos carnavalescos nas camadas populares da cidade. Em 12 de março de 1914, foi fundado o Grupo Barra Funda, o primeiro cordão de São Paulo, que mais tarde viria a ser a tradicional escola de samba Camisa Verde e Branco. As primeiras saídas do Grupo foram na hoje desfigurada rua Tupi, transferindo-se mais tarde para a esquina da Vitorino Camilo com a Conselheiro Brotero.
A música dos cordões era tão livre quanto sua apresentação. “A variedade rítmica usada pelos cordões paulistas das primeiras décadas de 1900 era tamanha, que documentos da época dão conta de que alguns até valseavam em seus desfiles, contrariando a máxima de que a música carnavalesca deve ser, necessariamente, alegre e agitada”.
Embora exista uma relação de fato entre os cordões e o surgimento das escolas de samba, é um equívoco tratá-los como meros embriões das escolas. Os cordões tiveram organização própria, original e auto-suficiente por muitas décadas. Em São Paulo, o primeiro grupo a se intitular “escola de samba” surgiu em 1935, no Bairro da Pompéia. Seu nome, não por acaso, foi A Primeira de São Paulo. Mas teve vida curta, terminando sete anos após sua fundação e legando quase nada à história do samba paulista. Criada em 1937, a Lavapés, sim, é reconhecida como a escola de samba mais importante da primeira metade do século XX, sendo considerada a mãe das demais escolas de São Paulo. Nos primeiros desfiles, que saíam da rua Galvão Bueno, a Lavapés comportava-se exatamente como um cordão, com balizas e estandarte e sem enredo, samba-enredo, mestre-sala e porta-bandeira e outros requisitos de uma escola de samba. Hoje, é uma pequena agremiação carnavalesca, quase desconhecida do público, mas que conserva uma simpatia inabalada de todo o meio do samba paulistano.
No rastro da Lavapés, veio a Nenê de Vila Matilde, que introduziu os carros alegóricos nos desfiles de São Paulo. Com a fundação da Nenê, pela primeira vez é possível falar em bateria, ao invés de batuque, no carnaval paulistano. Um instrumento que marcou o tempo de transição dos batuques para as baterias foi o repinique, que começou a aparecer nos cordões no final dos anos 50 com o nome de “caixinha carioca”. Seu aparecimento foi, sem dúvida, um sinal crescente da influência das escolas de samba do Rio de Janeiro.
A Era do Rádio
Os agitados anos 20 trouxeram ao Brasil as três grandes invenções que impulsionaram definitivamente a música popular: as transmissões radiofônicas, o sistema elétrico de gravação de discos e o cinema sonorizado. Juntas, elas ampliaram bastante as possibilidades mercadológicas da música, transformado-a num produto viável para ser comercializado. O rádio, por sua popularidade, tornou-se o principal porta-voz da música popular brasileira, projetando nacionalmente artistas em começo de carreira, como Dalva de Oliveira, Marlene e as irmãs Linda e Dircinha Batista, conhecidas com as rainhas do rádio.
A primeira emissora de São Paulo foi a Rádio Educadora Paulista (depois, Rádio Gazeta). O caso mais notório de sambista de cordão que conseguiu sucesso no rádio foi Henrique Felipe de Costa, o Henricão, também fundador do cordão Vai-Vai. Foi na Rádio Record que Henricão decolou sua carreira e caiu nas graças do povo paulistano. Depois de uma temporada no Rio, Henricão retornou definitivamente para São Paulo, dividindo a fama com outros sambistas paulistas, como Vassourinha, Blecaute e Risadinha. Esses três, porém, não vinham de cordões, eram cantores feitos pelo rádio e para o rádio. Outro cantor que ficou famoso com o rádio foi Osvaldo Gogliano, o Vadico, filho de italianos do Brás. Pianista, arranjador e compositor, Vadico ficou conhecido por ter sido o principal parceiro de Noel Rosa e autor de belas melodias do seu repertório, como “Feitio de Oração” e “Pra que mentir”.
Isaurinha Garcia, apelidada pelo radialista Blota Jr. de “Personalíssima”, foi outra cantora paulistana descoberta pelas rádios. Contemporâneo de Isaurinha Garcia, Adoniran Barbosa foi quem talvez tenha melhor retratado a cidade de São Paulo com seus sambas de sotaque caipira-italiano, como “Saudosa Maloca”, “Trem das Onze” e “Samba do Arnesto”. Nas palavras de Paulo Vanzolini, um dos maiores expoentes da nossa história musical, o samba “Apaga o fogo, Mané” diz mais sobre São Paulo do que “sete volumes de enciclopédia”. No início dos anos 50, Adoniran e o grupo Demônios da Garoa criaram uma relação de simbiose musical perfeita. “O Demônios era a voz que Adoniran precisava, enquanto ele era o compositor que podia fazê-los ultrapassar o arroz-com-feijão cantado pelos muitos conjuntos vocais da época”, conta Osvaldinho no livro.
As casas de samba
Exceto pelas gafieiras e uns poucos bares do centro da cidade, a vida noturna paulistana foi fraca até os anos 50, quando chegou por aqui a moda das boates. Dominadas pelo trio de piano, contrabaixo e bateria, as boates não costumavam abrir espaço para sambistas. Osvaldinho da Cuíca foi um dos poucos que tocou freqüentemente nesse tipo de lugar. Em 1965, porém, começava mais um capítulo importante da história do samba de São Paulo, com a abertura do bar Jogral, numa área rica do centro conhecida como Boca do Luxo. O Jogral tinha como proprietário o músico Luiz Carlos Paraná e foi um grande catalisador da volta do samba no final da década de 60. Foi lá que o Trio Mocotó fez sucesso, principalmente por conta de uma formação diferente de tudo o que havia até então, com pandeiro, cuíca e a curiosa timbatera, que funcionava como uma bateria. A partir daí, começam a surgir outras casas de samba, como a Telecoteco, no Bixiga, e a Catedral do Samba, uma das mais requintadas casas do gênero que a cidade já teve.
Foi nessa época que começou a despontar o talento de Paulo Vanzolini, então diretor do Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo, e autor de clássicos como “Ronda” e ‘Volta por Cima”. Apesar de ter se especializado em sambas de feitio carioca e em repentes nordestinos, a obra de Vanzolini é profundamente identificada com São Paulo, algo que remonta às perdidas serenatas do início do século XX.
Em 1968, um estranho caso de amor à primeira vista também deixou marcas no samba paulista. O casamento musical entre Jorge Bem e o Trio Mocotó uniu o sincopado do samba à pulsação do rock, criando um ritmo novo chamado de “suíngue”, “sambalanço” ou “samba-rock” (nome que acabou sendo o preferido das gerações posteriores). Jorge Ben teve uma verdadeira legião de seguidores. O mais famoso deles foi Bebeto, um paulistano do Brás, dono de um violão de suíngue extraordinário. Bebeto apareceu em meados dos anos 70 tocando em casas de samba do Bixiga e de Moema.
“Passada a onda inicial do samba-rock, Branca di Neve, um negro carismático criado no Bixiga, lança no mercado o disco Branca Mete Bronca, um marco no estilo. Por conta de seu senso rítmico preciso, Branca tornou-se rapidamente o surdista mais requisitado de São Paulo, gravando e se apresentando ao lado de vários astros da MPB, como Nara Leão, Toquinho e Clementina de Jesus”. Com o sucesso do seu primeiro disco, Branca di Neve partiu para a gravação de um segundo LP. Um aneurisma cerebral, no entanto, pôs fim a vida de uma das grandes nomes do samba paulista.
Vanguarda Paulistana
Foi no Festival Universitário de MPB da TV Cultura, organizado por Eduardo Gudin, em 1979, que o Brasil inteiro soube da existência da turma que viria a celebrizar o Lira Paulistana, representado por Arrigo Barnabé (vencedor do concurso), o conjunto Premeditando o Breque (atual Premê e segundo colocado) e Celso Viáfora. Segundo Osvaldinho da Cuíca, à época com 25 anos de carreira, “foi uma grata surpresa ver músicos jovens e inexperientes ousando tanto – e com qualidade – nos mais diversos aspectos de suas composições, desde as melodias e harmonias, até a poética e a rítmica”. A imprensa não perdeu tempo e passou a chamar o grupo de Vanguarda Paulista, pensando tratar-se de um movimento coeso e organizado, o que, no entanto, veio a se desmentir com o tempo.
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