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Pesquisador André Domingues fala sobre Caymmi em curso na Livraria da Vila

Curso “Dorival Caymmi – Em busca da brasilidade” aborda a obra do compositor baiano e a importância de sua intervenção na MPB, para além daquele estereótipo sobre o artista, frequentemente tido como simples reprodutor de traços típicos de sua terra natal. As aulas são ministradas por André Domingues, crítico musical, pesquisador e autor do livro “Dorival Caymmi sem folclore”, lançado pela Editora Barcarolla.

 

Curso “Dorival Caymmi – Em Busca da brasilidade”
Local: Livraria da Vila
Endereço: Alameda Lorena, 1.371
Dia: 19/07; 26/07 e 02/08
Horário: das 19h às 21h
Valor: R$ 180 (com vale-livro de R$ 15)

 

Dorival Caymmi, compositor baiano falecido em 2008, é um verdadeiro mito. Em torno dele formou-se uma imagem estereotipada, folclórica, do povo da Bahia, seu modo de vida e suas crenças, que acompanham a temática da produção do artista. Em oposição a essa falsa figura mítica, ensimesmada nos costumes mais simplistas do cotidiano da terra natal – como a contemplação do mar e da praia, o candomblé e a capoeira -, emerge o personagem em uma outra dimensão: moderno, envolvido com o mundo do rádio, da imprensa, da intelectualidade e também com a cultura urbana de seu tempo.

 

Esse Caymmi, que expande suas fronteiras para além da imagem folclorizada do baiano típico, é o tema do curso “Dorival Caymmi – Em busca da brasilidade”, ministrado por André Domingues, crítico musical e pesquisador autor do livro sobre o compositor baiano “Caymmi sem folclore”, lançado pela editora Barcarolla em agosto de 2009. O curso aborda a obra cancional muito além da imagem foclorizada e a importância da intervenção na MPB do autor de “Coqueiro de Itapoã”, “No Tabuleiro da Baiana”, “Saudade da Bahia” e tantas outras canções que marcaram a música brasileira como poucas foram capazes de fazer.

 

Dividido em três aulas, sempre as segundas-feiras e com duas horas de duração (das 19h às 21h), o curso terá início dia 19 de julho. O tema da aula é “Lá Vem o Baiano – Ambiente cultural de formação de Caymmi e da edição de suas primeiras obras”. A segunda aula, “Baiano em Copacabana – Interações de Caymmi com o mercado fonográfico, o governo e a intelectualidade da antiga Capital Federal”, será ministrada dia 26 de julho. A última, no dia 2 de agosto, terá como tema “É favor gostar de alguém? – A posteridade da obra”.

 

Sobre o livro

Em “Caymmi sem Folclore”, o viés não-folclorizante da obra consiste em mostrar a produção de Dorival Caymmi não a partir da capoeira, do candomblé ou do samba de roda, mas do universo do rádio, dos discos, do cinema, enfim, da cultura de massa. Ouvidas com atenção, composições do início da sua carreira, como o samba “O que É que a Baiana Tem?” e a canção-praieira “Noite de Temporal”, já indicavam um artista moderno, mais interessado em recriar a Bahia (e o Brasil) numa nova linguagem do que simplesmente em reproduzir um punhado de traços típicos. Seus sambas-canção, compostos a partir de meados dos anos 40, foram ainda mais longe, buscando uma síntese e uma universalização da cultura brasileira. Recriar, sintetizar e universalizar o nacional – três preocupações clássicas do modernismo. E também de Caymmi. Um modernista não-erudito, um modernista de ouvido.

 

“’Caymmi Sem Folclore’ é um título de intencional ambiguidade”, revela o pesquisador. Por um lado, recusa aquele romance adocicado, o folclore com ‘f’ minúsculo que se costuma fazer da história das personalidades marcantes da vida brasileira; por outro, combate a visão folclorizante – com ‘f’ maiúsculo – de Caymmi, tomado pela crítica como um reflexo imediato do meio em que se criou, tal como se costuma fazer com um mestre de maracatu pernambucano ou um jongueiro do sudeste. Os dois são problemáticos. O primeiro porque falseia os fatos, sob o pretexto de contar a história com “beleza”, e o segundo porque, ao tomar Caymmi como um criador folclórico, fatalizado a reproduzir a cultura da terra natal, perde o que há de particular e inovador na sua obra. Mais do que simplesmente refletir a Bahia, Caymmi criou uma Bahia. E criou com tanta habilidade que esta passou muitas vezes como sendo a Bahia essencial, a baianidade em si.

 

“Dorival Caymmi não foi vítima do seu tempo, nem tampouco um representante de um passado perdido ou de um futuro redentor. Tirados os balangandãs, a rede, a jangada, a boemia, nota-se um artista que, por iniciativa pessoal, aproveitou todos esses símbolos do seu tempo e, naquele mesmo momento, os redimensionou com muita competência, participando ativamente da conformação de um imaginário nacional popular”, resume o autor, no capítulo final do livro.

 

Júlio Pimentel Pinto, professor do Departamento de História da USP e redator do texto de orelha do livro, destaca que “Caymmi sem folclore” é, sobretudo, uma busca da História em sua obra, de um Brasil que assistia à expansão da cultura de massa, da força da propaganda, dos jingles políticos. “Um Brasil cujos meios artísticos e culturais se tornavam mais complexos. Neles, o baiano se aproximou de intelectuais e jornalistas. Enfrentou o ritmo acelerado de trabalho, próprio de um país que queria crescer. Ingressou na indústria cultural – rede bem mais agitada – e atuou anos dentro dela. Ao dar as costas para o mito e procurar o homem, André Domingues percebe um compositor e personagem da música brasileira muito mais interessante do que o clichê acompanhado de água de coco e palmeiras ao vento”, afirma.

 

Sobre o autor

André Domingues é licenciado em Filosofia pela Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e mestre em História Social pela USP (Universidade de São Paulo). Crítico musical e pesquisador, ele escreveu “Dorival Caymmi sem folclore” e “Batuqueiros da Paulicéia – Enredo do Samba em São Paulo”, este em parceria com Osvaldinho da Cuíca, ambos publicados pela editora Barcarolla.

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